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Mulheres negras que moldaram Brasília: ativismo e resistência na construção da capital

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Enquanto Brasília surgia como símbolo de modernidade nos anos 1960, mulheres negras como Jacira da Silva chegavam à nova capital em busca de oportunidades, mas enfrentavam segregação e exclusão. Jacira, que se mudou do Rio de Janeiro aos 9 anos, relata as dificuldades iniciais, como caminhar longas distâncias para estudar, destacando como a cidade era projetada de forma seletiva, afastando trabalhadores negros para periferias como Ceilândia e Taguatinga. Inspirada pelo geógrafo Milton Santos, ela explica essa segregação espacial como um instrumento de separação social. Sua politização ganhou força na adolescência, perto da Universidade de Brasília, durante a Ditadura Militar, marcada por racionamentos e repressões. Em 1981, ingressou no Movimento Negro Unificado do Distrito Federal (MNUDF), após atuar no Centro de Estudos Afro-Brasileiros (CEAB), combatendo o mito da democracia racial e defendendo a educação e cultura como ferramentas para igualdade.

O dossiê “O lugar das mulheres pretas na construção de Brasília nas décadas de 70, 80 e 90”, iniciativa do Núcleo de Arte do Centro-Oeste (Naco) e coordenado pela consultora chilena Paloma Elizabeth Morales Arteaga, reúne relatos de Jacira e outras seis lideranças, baseados em entrevistas e documentos do Arquivo Público do Distrito Federal. Paloma observa a discrepância entre a maioria negra na população brasileira e a falta de reconhecimento, especialmente em cidades como Bahia e Rio de Janeiro. Outras narrativas incluem a de Maria Luiza Júnior, fundadora do MNU-DF, que critica o Instituto Nacional Afro-Brasileiro por seu foco elitista, e a de Cristina Guimarães, que aponta as limitações do feminismo hegemônico ao ignorar mulheres negras, indígenas e trabalhadoras domésticas. Isso levou ao Encontro Nacional de Mulheres Negras em 1988, coincidindo com a Constituinte e o centenário da abolição, impulsionando organizações como o Coletivo de Mulheres Negras do DF e outras entidades nacionais.

Essas mulheres enfrentaram resistências internas nos movimentos, demorando para serem respeitadas como iguais. Jacira destaca a luta por espaço nas mesas de debate, enquanto Cristina recorda mobilizações contra a “falsa abolição”, culminando em marchas e na criação de grupos como Criola, Geledés e Mãe Andresa. O dossiê evidencia como seu ativismo contribuiu para a redemocratização e a Constituição Federal de 1988, promovendo direitos políticos e melhores condições de vida em um espaço historicamente negado às mulheres negras.

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